A PÍLULA ANTICONCEPCIONAL E A EMANCIPAÇÃO FEMININA. Karina Haddad Mussa

Desde os primórdios, as diferenças entre a natureza masculina e feminina têm sido motivo para muitas discussões, dúvidas e controvérsias que vão para além da biologia.

Meu maior interesse neste artigo é dar enfoque especial aos aspectos psicológicos e culturais por trás dos comportamentos da mulher, principalmente da mulher contemporânea que vem ganhando espaço no mercado de trabalho — e da vida —, e que desde o advento da pílula anticoncepcional, há 50 anos (em 18 de agosto de 1960-EUA), vem se “desamarrando dos grilhões” que a mantiveram castrada e comprimida em seus espartilhos reais e simbólicos, submetidas aos mandos e comandos dos seus “donos”. Isso mesmo, este termo refere-se à “objetivação” e “coisificação” da mulher- interrompida, que por séculos foi mera extensão, sempre confinada à condição diminutiva de objeto do desejo masculino, e que graças à liberação feminista, mais especificamente com a chegada dos contraceptivos orais, pôde deslocar-se à condição de mulher real, sujeito do próprio destino.

Psicologia, logos da psyque, segundo James Hillman (1991,p.40), psicólogo Junguiano, significa o discurso ou a narrativa ou a fala da alma (sempre inconsciente)  e para ele, a natureza feminina (anima) é libertária, profunda, emocional  e universal, ou seja, está latente (enquanto possibilidade) tanto no homem quanto  na mulher, pertence a todas as coisas como a possibilidade de transformação e contínua evolução.  Aqui não cabe a superficialidade, linearidade temporal. Falar em feminino é falar dela que ultrapassa todo esse conceito de tempo conhecido . “A anima faz vasos em todos os lugares, em qualquer lugar, ao ir para dentro.” (Hillman, 1990, p.95)

Historicamente falando, a chegada das bolinhas brancas contendo hormônios contraceptivos selou uma verdadeira revolução de costumes e hábitos novos, livrando aquela mulher “facultativa”, apagada, do destino de pária a que ela estava fadada. Com tais mudanças, a mulher pôde ensaiar novos passos em seus múltiplos papéis, emergir com suas honestas  potencialidades para poder deliberar sobre suas escolhas, inclusive para poder relacionar-se sem o perigo de uma gravidez indesejada. Chegou a hora de acabar com tanta desigualdade.

Como disse Eleanor Rooseveelt (1889-1905), ativista norte-americana, “As pessoas somente crescem através das experiências…” e “Ninguém pode fazer com que te sintas inferior sem o seu consentimento.”

Gostaria de ilustrar estar reflexões com a surpreendente publicação em 8 de março de 2009, no jornal oficial do Vaticano (L’Osservatore Romano) em homenagem ao Dia Internacional da Mulher, dizendo que a máquina de lavar talvez tenha feito mais pela liberação da mulher do séc. XX do que a pílula anticoncepcional ou o acesso ao mercado de trabalho.

As mudanças são sempre alavancas de evolução e crescimento, ondas necessárias que trazem sempre o novo como descoberta, quero dizer, sempre que estamos em um extremo, pendulamos para o extremo oposto num primeiro instante,  pois não há como avançar direto ao caminho do meio, tarefa que só o tempo é mestre, capaz de acomodação e habituação destes desequilíbrios. Com isso, acabam ocorrendo extremismos, exageros e transtornos, naturais à própria imaturidade destes processos que visam às novas conquistas. “Todo paraíso tem sua queda, todos eles têm algum tipo de serpente. É da natureza do paraíso que seu oposto apareça logo.” (do livro “A chave do entendimento da psicologia feminina.”)

As mulheres, foco deste artigo, também não escaparam destes tropeços, haja vista que muitas não estão sabendo mais quem são, perderam-se de si, pois ao caminhar em direção à independência e autonomia, soltaram-se de seus tesouros, defendendo-se pela masculinidade, travestindo-se de armaduras encouraçadas como se fossem constantemente para a  guerra de suas auto-afirmações em tantas jornadas.

Naturalmente volto a dizer que graças a todas estas conquistas, saímos das coleiras. A emancipação colocou a mulher de pé, com respeito à sua grandeza feminina, natureza linda daquela que pode conter, reter, engravidar, cuidar, comover-se, seduzir e amar com a intensidade de um furacão inconseqüente, sacrificar-se por arbítrio, intuir, criar, enxergar o invisível, ser forte e frágil, mas acima de tudo, exalar o perfume de ternura que reside em sua doce existência. Ser mulher é ser feminina. Ser mulher é inscrever-se neste universo de poesia e prosa, ainda que se perdendo para se achar, pois como bem disse  Simone de Beauvoir (1908-86):

“Não se nasce mulher, torna-se mulher”.

KARINA HADDAD MUSSA

Psicóloga Cognitiva-Comportamental especializada em Técnicas Cognitivas e Comportamentais pelo Albert Ellis Institute de Nova York, EUA; especialista em Medicina Comportamental e Terapias Cognitivas pela UNIFESP e EPM; especialista em Neuropsicologia pela UNIFESP. Atualmente desenvolve discussões filosóficas sobre as virtudes humanas e seus desvios como processo terapêutico no Instituto de Medicina Comportamental da UNIFESP e EPM.

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Somos uma editora focada na divulgação do conhecimento que visa o bem-estar humano. Sejam textos não acadêmicos de psicologia, sejam textos afins que objetivem uma vida mais simples e feliz. Como editores, acreditamos que o livro é um objeto de desejo. Desejo do leitor em mergulhar em um vasto universo, que aos poucos mudará sua vida — e sua visão de mundo —, e desejo do escritor em perpetuar experiências, pensamentos ou reflexões. Escrever um livro é perpetuar-se, legando ao mundo das letras o universo pessoal do autor que, possivelmente, influenciará outras pessoas de modo profundo. Escrever um livro é também sedimentar uma carreira profissional, legando conhecimentos adquiridos e fazendo história na profissão, pois tal compromisso de coragem e ousadia mostra a confiança de quem tem a certeza de ter muito a dar aos outros. Sendo assim, temos muito prazer em trabalhar nesse universo. E de tê-lo conosco nesse momento. Para aqueles que desejarem embarcar nessa experiência pessoal única, oferecemos nosso apoio, nossa estrutura, nosso tempo e nosso trabalho, para que juntos enriqueçamos ainda mais esse grande e criativo universo humano. Equipe República Editorial
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