DESMISTIFICANDO A ANSIEDADE. Karina Haddad Mussa

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Ansiedade é um sentimento natural e experimentado por todas as pessoas. Se você não sabe, é uma reação, uma resposta adaptativa do organismo frente ao menor sinal de  perigo — independente de real ou imaginário. O estado emocional correspondente  é parecido com o medo, porém dirigido para o futuro e desproporcional (a uma ameaça reconhecível) e que traz intenso desconforto psíquico e físico.

Do ponto de vista biológico (evolutivo) ansiedades imediatas ou de curto período são bem definidas como reações de “luta-e-fuga” cujos mecanismos neurobiológicos estão unicamente a serviço da sobrevivência e proteção da vida dos indivíduos, sendo portanto um mecanismo necessário e vital e vital, quando seus efeitos estão voltados para enfrentar ou para fugir de uma percepção de ameaça. Deixe-me explicar melhor: quando alguma forma de perigo é percebida (real ou subjetivamente) e antecipada pelo cérebro, o mesmo aciona e estimula um sistema composto de cérebro chamados sistema nervoso autônomo ou sistema nervoso vegetativo que controla o reflexo “ataque-fuga” relacionado ao controle da vida vegetativa, ou seja, monitora  funções como a respiração, circulação do sangue, controle de temperatura e digestão.  Este importante sistema, se subdivide em dois ramos: o sistema nervoso simpático e o sistema nervoso parassimpático, ambos encarregados de orquestrar sistemicamente os níveis de energia do corpo e de sua prontidão para a ação.

Enquanto o parassimpático (“freio”) está encarregado de restaurar o equilíbrio basal do corpo, o simpático é o sistema acelerador, haja visto o conjunto de reações fisiológicas que são disparadas numa situação de estresse: taquicardia, sudorese, tremores, dores de cabeça, no peito, distúrbios gastro  intestinais, tensão muscular, tonteira etc.

Assim como nossos ancestrais, nós precisamos deste sistema de emergência perfeitamente automátizado com a única finalidade de nos manter alertas e prontos para agir ou reagir sempre que necessário, caso contrário, nossa vida estaria severamente ameaçada. Tudo o que o nosso corpo faz tem uma função e atende à uma razão justa, sendo assim, a resposta de ansiedade é benéfica e funcional à nossa boa adaptação ao mundo, um mecanismo favorável e essencial à vida.

A ansiedade quando prolongada (crônica ou aguda) vai trazendo prejuízos silenciosos e devastadores à saúde psíquica (transtornos psiquiátricos) através de uma combinação complexa de sentimentos de muita apreensão, angústia contínua, preocupação contínua, medo patológico (pânico), desespero entre outros bem como à saúde física por sensações corporais desagradáveis e somatizações, tais como: sensação de vazio no estômago, fadiga e esgotamento, confusão mental, coração batendo descompassado, aperto no tórax, aumento da transpiração e/ou falta de ar, alterações no fluxo sanguíneo e na digestão, sensações alternadas de calor e frio, tensões musculares, doenças cardiovasculares, gastro intestinais, declínio cognitivo etc., resultando em cansaço e esgotamento.

A longo prazo, o estresse decorrente da sobrecarga do organismo pode causar doenças físicas (através do desequilíbrio dos três sistemas interligados: endócrino, inflamatório e imunológico) e transtornos psiquiátricos. Eis os transtornos de ansiedade clássicos, descritos na literatura (DSM.IV): Agorafobia; Ataque de Pânico; Transtorno de Pânico Sem Agorafobia; Transtorno de Pânico Com Agorafobia; Agorafobia Sem História de Transtorno de Pânico; Fobia Específica; Fobia Social; Transtorno Obsessivo-Compulsivo; Transtorno de Estresse Pós-Traumático; Transtorno de Estresse Agudo; Transtorno de Ansiedade Generalizada; Transtorno de Ansiedade Devido a uma Condição Médica Geral; Transtorno de Ansiedade Induzido por Substância; Transtorno de Ansiedade Sem Outra Especificação.

O termo ansiedade está ligado à palavra temor, sendo assim a pessoa passa a ter medo de errar e/ou falhar quando da realização de diferentes tarefas, chegando às vezes a desistir de enfrentá-las (fuga ou esquiva) e pior, como o efeito número um da reação de “luta-e-fuga” é o alertar o organismo para a possível existência de um perigo, provoca uma mudança automática e imediata da atenção que fica voltada na busca de “escanear” prováveis ameaças em potencial. Por isso, passa a ser muito difícil concentrar-se em tarefas que exijam foco e concentração.

Aqui vai um conselho: “procure estar presente no aqui e no agora de cada momento de sua vida, esta prática requer muita disciplina, pois estamos condicionados a viver os momentos com a cabeça deslocada ora no passado ora no futuro, o que desperdiça tempo, potencial criativo e quase toda nossa energia deslocada para áreas imaginárias. Isto é um contra-senso, um comportamento completamente disfuncional e pouco inteligente.”

Do ponto de vista cognitivo, pessoas ansiosas freqüentemente se queixam de ficarem facilmente distraídas (baixa atenção) e como conseqüência não conseguem se concentrar (focar atenção e fixar o conteúdo) passando a ter como resultado sensações de perda de memória com uma série de subseqüentes prejuízos psicossomáticos e frustrações tanto profissionais quanto pessoais tais com estima baixa comprometendo a autoconfiança.

Tanto a ansiedade quanto o medo, não surgem na vida da pessoa por uma escolha. Acredita-se que vivências interpessoais e problemas na primeira infância possam ser importantes causas desses sintomas. Além disso, existem causas biológicas como anormalidades químicas no cérebro (desequilíbrio dos neurotransmissores) ou distúrbios hormonais.

As principais causas da ansiedade: as causas da ansiedade podem ser decorrentes de fatores biopsicossociais (ambientais, psicológicos, químicos, pré-disposição hereditária etc.) O que mais desestrutura e aflige as pessoas, são as questões emocionais inconscientes (do “universo psíquico”) sempre que irrompem as vulnerabilidades e pontos fracos adquiridos na primeira infância (nas relações parentais), disparando “gatilhos” e sintomas indesejáveis que impossibilitam as pessoas de conseguirem muitas vezes relaxar, descontrair e decidir suas vidas de um modo mais racional e eficaz.

Se este processo não é contido a tempo, qualquer coisa passa a ser motivo de tensão, irritabilidade e nervosismo, aumentando assim, o grau de ansiedade e os problemas da vida.

Veja as causas mais freqüentes sistematizadas logo a baixo:

1. Baixa Resistência à Frustração: Característica do indivíduo que se aborrece facilmente. Falta de resiliência (capacidade de adaptação para a vida).

2. Ameaças Constantes: Pessoas que se sentem intimidadas, gerando atitudes de recuo, de afastamento.

3. Competitividade: Pretender uma coisa simultaneamente com outra pessoa.

4. Falta de Tempo para Si Mesmo: Trata-se do indivíduo que não consegue se organizar, se programar, para que o seu tempo seja bem administrado.

5. Ansiedade Constante: Quando o indivíduo apresenta um comportamento aflitivo ligado a uma sensação constante de perigo.

6. Baixa Autoestima: Pessoas que não se gostam, não se valorizam e não respeitam seus limites, agindo como se fossem seus piores inimigos.

7. A Ansiedade em níveis muito altos, ou quando apresentada com a timidez ou depressão, impede que a pessoa desenvolva seu potencial . O aprendizado é bloqueado e isso interfere não só no aprendizado da educação tradicional, mas na inteligência social. O indivíduo fica sem saber como se portar em ocasiões sociais ou no trabalho, o que pode levar à estagnação na carreira.

A autoajuda e técnicas de relaxamento também desempenham importante papel no alívio dos sintomas da ansiedade. Autoajuda inclui dieta apropriada, exercícios físicos, rir, não se levar muito à sério, técnicas de respiração, caminhada rápida, sono adequado etc. Há várias técnicas de relaxamento disponíveis, converse sobre isso com um profissional especializado.

Identificando algumas situações

• Procure prestar atenção às pessoas à sua volta. Tire o foco de si mesmo e pare de criticar-se. As demais pessoas podem ser interessantes e certamente também estão vulneráveis a críticas, assim como você.

• Se perceber que está ruborizado, suando ou tremendo, lembre-se de que estes sinais são mais perceptíveis para você do que para os demais. Além disso, ficar ansioso não é sinal de fraqueza e não precisa se envergonhar disso. Assim como ataques de pânico, em poucos minutos estas sensações mais intensas cedem e desaparecem. Há uma técnica chamada “Distração” que ensina a pessoa nestas situações de extremo medo a fazer uma contagem regressiva de três em três (começando com 100), justamente para que haja o deslocamento do foco da atenção da situação aterrorizante para o raciocínio cognitivo.
• Aprenda a colocar sua opinião de forma clara e assertiva, sempre que tiver algo a dizer.

Participe. Falar em público e expor suas idéias é uma questão de habilidade que só requer iniciativa e treino.

Importante: sobrecargas “boas” também podem estressar e trazer prejuízos à saúde. Exemplos: comprar, reformar, construir casa, promoção no trabalho com novos desafios, casamento, ganhar na loteria e ter que investir o dinheiro, mudanças em geral, excitam e hiperativam o organismo.

Com o tempo aprendemos a controlar, administrar e conviver com os problemas que nos sobrecarregam e causam ansiedade. Cada pessoa tem um limite de problemas que ela consegue administrar, isso é individual. Você não precisa se livrar de todos os seus problemas para melhorar, basta chegar à quantidade que você consegue administrar sem estressar. Saiba qual é a sua medida e não ceda aos excessos.

Reconheça quando precisar de ajuda e procure identificar a causa antes de buscar um tratamento apropriado. Se a questão é de fundo emocional, não hesite em consultar um psicólogo pois como disse Jung:

“Aquilo a que você resiste, persiste.”

KARINA HADDAD MUSSA
Psicóloga Cognitiva-comportamental especializada em técnicas Cognitivas e Comportamentais pelo Albert Ellis Institute de Nova York, EUA; especialista em medicina Comportamental e Terapias Cognitivas – UNIFESP e EPM neuropsicologia pela UNIFESP. Atualmente desenvolve discussões filosóficas sobre as virtudes humanas e seus desvios como processo terapêutico no Instituto de Medicina Comportamental da UNIFESP
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Sobre República Editorial

Somos uma editora focada na divulgação do conhecimento que visa o bem-estar humano. Sejam textos não acadêmicos de psicologia, sejam textos afins que objetivem uma vida mais simples e feliz. Como editores, acreditamos que o livro é um objeto de desejo. Desejo do leitor em mergulhar em um vasto universo, que aos poucos mudará sua vida — e sua visão de mundo —, e desejo do escritor em perpetuar experiências, pensamentos ou reflexões. Escrever um livro é perpetuar-se, legando ao mundo das letras o universo pessoal do autor que, possivelmente, influenciará outras pessoas de modo profundo. Escrever um livro é também sedimentar uma carreira profissional, legando conhecimentos adquiridos e fazendo história na profissão, pois tal compromisso de coragem e ousadia mostra a confiança de quem tem a certeza de ter muito a dar aos outros. Sendo assim, temos muito prazer em trabalhar nesse universo. E de tê-lo conosco nesse momento. Para aqueles que desejarem embarcar nessa experiência pessoal única, oferecemos nosso apoio, nossa estrutura, nosso tempo e nosso trabalho, para que juntos enriqueçamos ainda mais esse grande e criativo universo humano. Equipe República Editorial
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5 respostas a DESMISTIFICANDO A ANSIEDADE. Karina Haddad Mussa

  1. Diva Aidar disse:

    Boa noite,
    gostei muita da matéria, muita clara e concisa
    A Dra Karina é excepcional.
    Moro em curitiba, gostaria de fazer terapia na linha cognitiva e comportamental,
    poderiam me indicar um profissional por aqui?
    Acredito sofrer desse mal, preciso de ajuda.
    obrigada
    diva

  2. República Editorial disse:

    Cara Diva,
    Vamos encaminhar seu post à Karina, que poderá lhe dar melhores indicações.
    Um abraço.

  3. alexandre sacomano disse:

    Gostaria do contato e end. da dra. karina. Não consigo localizar seu consultorio.
    Obrigado.
    Alexandre

  4. República Editorial disse:

    Olá Alexandre,
    Vou repassar sua mensagem à Dra Karina e ela poderá lhe responder diretamente.
    Grato pelo contato

  5. República Editorial disse:

    Elaine,
    Se você desejar, te passo um contato de alguém com quem você possa conversar. Um psicólogo ou psiquiatra poderá te ajudar. Ou quem sabe, alguém para te ouvir. De vez em quando a gente precisa desabafar…
    Um abraço e muita força.

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